E num repente passaram 30 anos que mudaram a forma de viver o mundo. E no mundo.

Nov 21, 2012

Sou um felizardo. Nasci numa época analógica e atravesso a primeira das fases digitais. Sou do tempo... ou melhor, sou o tempo da mudança em que todos os dias surge um melhoramento, um novo equipamento, melhor qualidade, com mais ou menos toques e gestos, em rede ou na nuvem.

Trabalhei com ecrãs de fosfato verde e disquetes de dois tamanhos, espero agora teclados virtuais e monitores não físicos. Vim das impressoras a agulhas e com papel picotado, perfurado, com folhas coladas às anteriores e perseguidas por ainda mais outras que estavam sempre no chão, servidas por um caixote, mas sei que a minha próxima será 3D que me permitirá imprimir em casa objectos físicos que comprei segundos antes numa loja online global.

Tive computadores de todos os tamanhos e marcas com vários sistemas operativos que trabalharam com disquetes, CDs, DVDs e mais recentemente com BluRays, USBs, SDCards e nuvens. Amanhã serão outros acessórios.

Foram estes instrumentos informáticos que me possibilitaram ter, ainda em tempo útil, algumas vidas. A de músico, por exemplo, como compositor e letrista. Foi através de software que passei o que ia dentro da alma para um papel que verdadeiros músicos reinterpretaram. E foi com software que gravava as notas que tocava num teclado, com todos os sons possíveis e imaginários, para dentro do disco rígido. Também os videoclips de promoção para outra área, a que começou num blogue, passou a podcast, daí a rubrica radiofónica e finalmente a livro, foram produzidos e conseguidos através dessas máquinas que contam uns e zeros. E agora, que me lanço mais a sério num blogue informativo, o meu Xá das 5, é através desta linguagem informatizada que me chegam notícias que reescrevo e dou a conhecer, que me aproximo de quem me lê e que se dá ao trabalho de me enviar um email, de me questionar por comentário, de fazer um "gosto" nas minhas existências socialmente digitais.

Fui do tempo de se trabalhar à mão. Passei directas em gráficas paginando o semanário, colando filetes autocolantes, pedindo novas tiradas de texto porque tinha descoberto uma gralha. Também fiz maquetes físicas para mostrar ao cliente como iria ficar o seu stand nesta ou naquela feira. Tanto papel fotográfico e tinteiros gastei para mostrar a campanha para aquele produto, a sinalética para aqueloutro, o design corporativo para a nova empresa que agora se chama startup. Sim, é também essa a diferença que veio para ficar, os estrangeirismos técnicos refoçados por tecnologias inovadoras, formas de negócio focalizadas na perfeição, métodos ultra rápidos que a comunicação, sempre ela, entre pessoas ou bites, se dá agora à velocidade não de um clique, mas de um toque num qualquer ecrã.

Mas ainda sou um felizardo porque vivo duas vidas distintas, a por dentro de zeros e uns e a que existe fora deles. Ainda frequento esplanadas e estou com amigos, ainda prefiro tertuliar ao redor de uma mesa em vez numa das múltiplas salas de conversação, vulgo chats, e ainda gosto de tocar e sentir o abraço de quem me faz um "poke". Esse, infelizmente, é o lado obscuro da tecnologia. Tanto abre um mundo a quem é solitário, como retira as pessoas da rua, de um olhar, de um amor à primeira vista.
Esse amor, agora, só se for por SMS...
E qualquer dia por NFC.

Mas que tem sido uma grande aventura, e que continua a ser fascinante, ninguém pode negar. Todavia, e de vez em quando, relembro-me aflito porque a cassete do Spectrum teimava num erro, o Grand Prix do Commodore Amiga tinha 14 disquetes e o último jogo que comprei para a toda poderosa consola de jogos já está arrumado a um canto porque... o tempo não é digital.

Um enorme :) para a Samsung que me convidou a relembrar o que já vivi ao escrever estas palavras, com um brinde bem especial aos próximos 30 anos de avanços tecnológicos.


João Gata, Nov 2012
www.xadas5.com