A muleta adjacente

Nov 30, 2012

Acabou de atualizar as aplicações no seu smartphone? Ou então está a pensar comprar aquele novo aparelho que tem uma funcionalidade que acha fantástica? Esse seu medo de ficar de fora das novidades alimenta-se da eterna promessa que a tecnologia irá tornar as nossas vidas mais fáceis.

    Os sonhos de infância de nos deslocarmos de hovercraft ou calçarmos botas com propulsores foram traídos por uma realidade alternativa em que desenvolvemos combustíveis limpos ou criamos curas para doenças.
O cientista Stuart Kauffman apresenta uma explicação particularmente interessante que nos ajuda a perceber estes diferentes cenários alternativos do futuro: a teoria do possível adjacente.

    Aplicada sobretudo a sistemas complexos em biologia, e popularizada pelo autor Steven Johnson, a teoria de Kauffman tenta perceber como podem organismos complexos evoluir. No extremo que os levou à sua adaptação, existe um limite de equilíbrio para a vida desses organismos. Para mais ou para menos desse limite, a sua existência não é possível, sendo a sua sobrevivência condicionada por um possível adjacente. Esta teoria procura assim explicar porque existem mosquitos ou girafas a partir de um caldo primordial da evolução.

    Em relação a um presente são traçados círculos de possibilidades e respectivos mapas de futuros alternativos, crescendo e mudando à medida que os vamos explorando. Ao decidirmos abandonar os sonhos de hovercrafts por ficar fora dos nosso limites, decidimos explorar outros cenários como secadores de mãos ou turbinas eólicas. Ao escolhermos no possível adjacente a tecnologia VHS em vez de Betacam ou ecrãs plasma em vez de LCD, moldamos o edifício do futuro, abrindo novas portas.

    Esta forma de apreciar a evolução pode ajudar-nos também a fazer as pazes da tecnologia com a criatividade, encarando a novidade como uma incursão ao possível adjacente.

    Nas indústrias criativas, é habitual a expressão “usar a tecnologia como uma muleta”, quando nos queremos referir ao uso da tecnologia como artifício criativo na falta de uma boa ideia.

     É altura de começar a olhar para a tecnologia com não como muleta criativa, mas como “muleta adjacente”, usando-a para mapear outros caminhos que ajudam à criatividade. Criatividade passa assim a considerar a forma como exploramos as combinações da tecnologia actual em direcção aos seus limites.

    Em vez de olharmos para alojamento na cloud como apenas um jargão tecnológico, porque não olhar para ele como um precursor de um futuro sem armazenamento. Do mesmo modo, os QR codes podem deixar de ser vistos apenas como um artifício de marketing, e encarados como os precursores das superfícies de retalho como espaços onde pode ser adicionada informação virtual.

    Mais do que pensar fora da caixa será necessário pensar cada vez mais no limite até onde a tecnologia pode evoluir com a ajuda de uma muleta adjacente.

  • Armando Alves