O Notebook, a mochila e as minhas costas

Nov 30, 2012

Há quem diga que não sente os anos passar. Mas não acreditem. Não é necessário sentir a chegada das artroses ou lamentar o crescimento teimoso da cintura para se saber que, mesmo indo ao ginásio, já não se sobem escadas com a mesma facilidade, já custa um pouco mais levantar pesos e já não se pode abusar quando se carrega a mala. É a idade, a maldita da idade, e esta cobra sempre o seu preço.

    Fossem outros os tempos, e a passagem dos anos seria tranquilamente acomodada com aquela sabedoria que nos leva a ter cuidado com os excessos e a temer as dores nas cruzes. Mas não. Estes tempos são exigentes, porventura cruéis, e deixam-nos cada vez menos espaço e menos oportunidades para “desligarmos”. Primeiro chegou o telemóvel, e passámos a ser contactáveis em todo o lado. Depois veio a Internet e o email, e deixámos de poder dizer que o carteiro ainda não tinha chegado. Por fim percebemos que já não bastavam os volumosos computadores de secretária, e passámos a andar com portáteis de um lado para o outro, sempre a procurar saber onde os podemos ligar à rede – e palavras como WiFi ou HotSpot entraram no nosso vocabulário e no nosso quotidiano. Para se “estar ligado” passou depressa a ser necessário um smartphone, um tablet e, claro, o velho portátil. Sem surpresa vimos os executivos a substituir a mala de cabedal, ou o sucedâneo da pasta “à James Bond”, por amplas mas amarrotadas mochilas. Afinal, além da profusão de aparelhos, passou a ser necessário andar com os cabos, os carregadores, as pens e os discos externos. Deixou de ser preciso ser nerd para transportar um pequeno escritório electrónico às costas.

    Acontece que ainda mal se anunciava esta era quando, numa passagem por Nova Iorque, descobri uma mochila que dispunha de um compartimento espaçoso e acolchoado para acondicionar o portátil. Comprei-a logo e trouxe-a para um dos meus filhos, que já então andava sempre com o portátil às costas. A mim bastava-me então uma mala a tiracolo, apesar de a coluna já se começar a queixar do peso mal distribuído. Os anos passaram e hoje sou eu que adoptei essa já estafada mochila ao meu dia-a-dia, levando-a para todo o lado, em trabalho ou em lazer. Com o portátil lá dentro, claro. E tudo o resto.

    O problema é que, com ou sem mochila, até há bem pouco tempo falar de um portátil ainda era um eufemismo. Um computador com um ecrã de dimensões razoáveis, mais os cabos e os carregadores, era coisa para pesar alguns quilos. Cabia tudo, é certo, no tal compartimento da mochila, mas pesava-nos nas costas e nas pernas. Carregávamo-lo, mais do que andávamos com ele. Até que apareceram os notebooks, os primeiros com teclados e ecrãs minguados, os mais recentes com belos ecrãs, cinturas de vespa – de tão finos que são – e peso de ginastas chinesas, superleves ao ponto de quase nem se dar por eles.

    É nestas alturas, e não quando se tenta nos ginásios recuperar a forma de outrora, que o peso dos anos não nos sobrecarrega, antes nos alivia. Ligeirinhos, com uma velha mochila e um novo notebook, agradecemos o advento destes tempos exigentes que, ao mesmo tempo que são mais exigentes, também são mais generosos. Como só tecnologias amigáveis e desenvolvidas a pensar em utilizadores com dores nas costas tornam possíveis. Porque estes notebook são o que os portáteis nunca foram: realmente portáteis.

  • José Manuel Fernandes